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TDAH e inclusão: conscientização, direitos e desafios atuais.

Jonathan Maycon Honório / Estudante de Psicologia

Comissão Cientifica da Associação Juizforona de Estudantes de Psicologia - AJEPSI


Recentemente, um caso emblemático de preconceito ganhou repercussão nacional: em Sorocaba (SP), uma funcionária de um colégio particular salvou o contato da mãe de uma criança com Transtorno de Déficit de Atenção e Hiperatividade (TDAH) como “Mãe de BOzão”, segundo matéria do G1. A escola foi condenada a indenizar a família, uma pequena vitória diante de uma dor que revela o despreparo e o estigma ainda presentes em relação à condição. Situações como essa evidenciam a necessidade urgente de avanços em respeito, empatia e inclusão escolar e social.

No dia 13 de julho, celebra-se o Dia Mundial do TDAH, data que reforça a importância da conscientização global sobre os prejuízos que o transtorno pode causar em diferentes contextos da vida dos indivíduos. O TDAH é compreendido como uma condição neurocomportamental complexa, abordada tanto pela perspectiva biomédica, que enfatiza sua base neurobiológica, quanto pela psicossocial, que considera os determinantes sociais, culturais e institucionais envolvidos em sua identificação e tratamento.

Reconhecido como um dos principais transtornos do neurodesenvolvimento que se manifestam precocemente na infância, o TDAH afeta funções executivas cerebrais, como atenção, controle de impulsos e planejamento, e pode se apresentar de diferentes formas ao longo da vida. Embora estudos indiquem que certas características do quadro tenham sido vantajosas para nossos ancestrais, favorecendo a exploração em ambientes imprevisíveis, na sociedade atual essas mesmas características impõem desafios significativos.

O diagnóstico de TDAH funciona como uma "tecnologia de poder", moldando identidades e práticas institucionais, especialmente em escolas e serviços de saúde. Esse processo exige uma avaliação criteriosa e multidisciplinar para evitar rotulações indevidas. Há o risco de que uma criança com desenvolvimento típico seja equivocadamente diagnosticada com o transtorno, desenvolvendo sentimentos de incapacidade que podem persistir na vida adulta. Por outro lado, o TDAH também é frequentemente subdiagnosticado. Mesmo com uma estimativa global de 2,8% em adultos, seus sintomas podem ser confundidos com manifestações de estresse, ansiedade ou depressão. Isso reforça a necessidade de atenção aos impactos reais e duradouros dos sintomas no cotidiano, a fim de se alcançar um diagnóstico preciso.

Os efeitos do TDAH estendem-se por todas as fases da vida, afetando o desempenho acadêmico, com dificuldades específicas de leitura e compreensão na infância, geralmente associadas a variáveis cognitivas, as relações sociais e afetivas, a comunicação, a experiência universitária e até o envelhecimento. Adolescentes e adultos enfrentam desafios no controle executivo e na organização. O diagnóstico tardio costuma estar associado a um histórico de fracasso escolar, baixa autoestima e dificuldadespsicossociais. Embora intervenções combinadas, psicológicas, educacionais e medicamentosas, sejam eficazes na adolescência, segundo estudos a persistência de déficits de linguagem narrativa na velhice sugere que o transtorno pode não ser remitente.

Alarmantemente, um estudo publicado em 2025 no The British Journal of Psychiatry revelou que pessoas com TDAH podem ter uma expectativa de vida significativamente menor. Homens vivem, em média, 6,78 anos a menos e mulheres, 8,64 anos. Essa redução não se deve exclusivamente ao transtorno em si, mas a um acúmulo de vulnerabilidades evitáveis, como a ausência de diagnóstico e tratamento adequados, estigmas sociais e menor acesso a cuidados médicos. Por isso, é crucial que os processos decisórios, sobretudo nas áreas da saúde e da educação, respeitem a escuta de crianças, adolescentes e, enfaticamente, de seus responsáveis, considerando seus direitos, sentimentos e experiências.

Para muitas mães e professores, o diagnóstico pode representar um alívio, ao permitir que crianças com dificuldades no neurodesenvolvimento deixem de ser vistas como “malcriadas” ou “problemáticas” e passem a ser compreendidas como pessoas com uma condição médica, promovendo mudanças significativas no ambiente familiar e escolar. A valorização da psicologia nesse processo e a adoção de uma abordagem multidisciplinar na educação, alinhada aos princípios da inclusão e da educação para todos, são fundamentais.

Nesse cenário, a recém-aprovada Política Nacional de Proteção dos Direitos da Pessoa com TDAH pela Câmara dos Deputados representa um avanço significativo. Embora a política não classifique a condição como deficiência, ela assegura o acesso a serviços de saúde, incluindo medicamentos gratuitos, educação, oportunidades de emprego e proteção. A legislação estabelece que grandes empresas, com mais de 10 mil empregados, tenham equipes de RH capacitadas para lidar com pessoas com TDAH, e que escolas com profissionais de apoio não possam recusar matrícula, sob pena de sanções. Também prevê prazos estendidos em avaliações e cursos. A proposta ainda será analisada por outras duas comissões antes de seguir para o Senado.

É urgente repensar o lugar do TDAH nas políticas públicas e nas práticas institucionais, rompendo com a lógica da medicalização e promovendo estratégias educativas inclusivas e não punitivas, que respeitem as singularidades de cada indivíduo. Investir na formação de profissionais, na estruturação de equipes interdisciplinares, no acolhimento institucional e no acesso a terapias cognitivas e psicopedagógicas é essencial para garantir um cuidado ético, integral e transformador. Esse esforço coletivo visa promover um futuro mais justo e inclusivo, no qual as características do TDAH possam ser compreendidas e valorizadas, e os direitos dos indivíduos e de suas famílias, plenamente respeitados.


REFERÊNCIAS


BENITEZ, P. Psicologia e educação especial. Londrina: Editora e Distribuidora Educacional S.A., 2017.


BRZOZOWSKI, R. C.; THEODORO, B. H. C.; LIMA, J. S. Ampla Visão em relação ao Transtorno de Déficit de Atenção e Hiperatividade (TDAH): uma revisão bibliográfica. Revista Eletrônica Ciência & Tecnologia Futura, v. 1, n. 1, 2025. Disponível em: https://revista.grupofaveni.com.br/index.php/revista-eletronica-cienciatecno. Acesso em: 23 jun. 2025.


CÂMARA DOS DEPUTADOS. Comissão aprova política de proteção aos direitos das pessoas com TDAH. Notícias, Brasília, DF, 26 maio 2025. Disponível em: https://www.camara.leg.br/noticias/1162840-comissao-aprova-politica-de-protecao-aosdireitos-das-pessoas-com-tdah. Acesso em: 23 jun. 2025.


G1. Colégio particular é condenado a indenizar família de criança com TDAH após salvar contato em celular como ‘Mãe de BOzão’ em Sorocaba. G1, Sorocaba e Jundiaí, 19 jun. 2025a. Disponível em: https://g1.globo.com/sp/sorocabajundiai/noticia/2025/06/19/colegio-particular-e-condenado-a-indenizar-familia-decrianca-com-tdah-apos-salvar-contato-em-celular-como-mae-de-bozao.ghtml. Acesso em: 23 jun. 2025.


G1. TDAH pode ter sido uma vantagem evolutiva, indica estudo. G1, [s. l.], 29 fev. 2024. Disponível em: https://g1.globo.com/saude/noticia/2024/02/29/tdah-pode-ter-sidouma-vantagem-evolutiva-indica-estudo.ghtml. Acesso em: 23 jun. 2025.


UOL. Adultos com TDAH podem ter menor expectativa de vida, diz estudo.VivaBem, 25 maio 2025. Disponível em: https://www.uol.com.br/vivabem/noticias/redacao/2025/05/25/adultos-com-tdahpodem-ter-menor-expectativa-de-vida-diz-estudo.htm. Acesso em: 23 jun. 2025.

 
 
 

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